VOTAR
Texto de Raquel de Queiroz
Revista O Cruzeiro, 11 de janeiro de 1947
(A REDAÇÃO É A DA ÉPOCA EM QUE FOI PUBLICADO)
Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo.
(A REDAÇÃO É A DA ÉPOCA EM QUE FOI PUBLICADO)
Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo.
Escolhe-se pelo voto aquêles que vão
modificar as leis velhas e fazer leis novas - e quão profundamente nos
interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo,
até o ar que se respira e a luz que nos alumia, até os sete palmos de terra da
derradeira moradia.
Escolhemos igualmente pelo voto
aquêles que nos vão cobrar impostos e, pior ainda, aquêles que irão estipular a
quantidade dêsses impostos.
E assim, amigos, quando vocês forem
levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fêz um favor, ou para
o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para
Beltrano que é tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois
solicitou o seu sufrágio - lembrem-se de que não vão proporcionar a êsses
sujeitos um simples emprêgo bem remunerado.Vão lhes entregar um poder enorme e
temeroso, vão fazê-los reis;
E tudo isso pode se virar contra nós
e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e
criador. Votem, irmãos, votem. Mas pensem bem antes. Votar não é assunto
indiferente, é questão pessoal, e quanto! Escolham com calma, pesem e meçam os
candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem
escolhendo uma noiva.
E agora um conselho final, que pode
parecer um mau conselho, mas no fundo é muito honesto. Meu amigo e leitor, se
você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum
poderoso para sufragar êste ou aquêle candidato, não se preocupe. Não se prenda
infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua
timidez. Lembre-se de que o voto é secreto. Se o obrigam a prometer, prometa.
Se tem mêdo de dizer não, diga sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar
a sua livre escolha. Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem
mêdo, não se esqueça de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ É UM HOMEM
LIVRE. Falte com a palavra dada à fôrça, e escute apenas a sua consciência.
Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até
o inferno”.
Rachel de Queiroz
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